Casinha branca

Às vezes você constrói uma casa. Tudo pensado com carinho. Cada cômodo, cada mobília… Você quer sua casa aconchegante, quer receber as pessoas que ama, quer ser feliz.

Com o tempo você vai percebendo que a casa é quente. Percebe que os móveis trazem desconforto por causa do calor… O fogão não está muito bom… Ou a comida fica crua ou queima. Com o tempo aquela casa se torna um pesadelo… Mas é a SUA casa. A casa que você levou tempos para construir… Então tudo é uma questão de paciência. Você compra um ar-condicionado, reforça as telhas, faz uma piscina. Todos os dias você cozinha na esperança de desta vez vai dar certo…se já deu uma vez, por que não vai dar de novo? Mas não dá…ela queima de novo ou ficou crua de novo. Você não entende por que o ar-condicionado não funciona direito. Talvez seja a instalação mal feita. Talvez seja defeito de fábrica… Mas você espera. Vai ver o dia estava muito quente.

Com o tempo a sua casa só te dá tristeza. Mas é a SUA casa. Você não quer vender… Você construiu com tanto carinho… Vai ter um jeito. O tempo vai melhorar. Você vive cada dia… Não dorme, não tem mais paz. Mas você espera, porque o tempo vai melhorar. A comida você vai acertar. Deixa o carpete, porque por mais que 90% dos dias sejam quentes, vai chegar pelo menos um dia de frio.

Você espera o frio. Você espera o tempo da comida. Você pensa em mudar… Você pensa em vender… Mas é a SUA casa. Todo trabalho, todo esforço… Não é justo. Você tem pena de se desfazer do que construiu. E você já se esforçou tanto… Você gastou tudo que tinha. Você tenta todos os dias, mas aquela casa não te faz mais feliz. Não é mais aconchegante. Não parece mais com você. Por quê? Você fez de tudo… Colocar à venda? Melhor esperar alguém que se interesse. Você não pode deixar tudo para trás… São suas esperanças… sua casa…sua vida.

Um dia você acorda suada, com fome e doente.
Escuta…Vai embora…Vai embora! Não adianta… Tudo que você poderia fazer, você já fez. Não espere o tempo melhorar. Não espere a casa voltar ao que era…Você já tentou… Talvez por falta de sorte… Não importa. Vai embora…Não fique com pena do dinheiro que gastou. Não fique com pena das noites sem dormir. Não lamente todo esforço. Vai embora! Mesmo que não tenha para onde ir. Não tente mudar os móveis de lugar. Não tente consertar o que quebrou. Não pense mais no que você pode ter feito de errado… Vai embora! Vai embora agora! Não leve nada com você, não olhe para trás…saiba desistir do que te faz infeliz.

Pessoas vão dizer que você não se esforçou.
Vão dizer que poderia ter tentado mais.
Vão dizer que a culpa é sua, porque não ouviu quem entendia mais que você.
Vão dizer que a culpa é sua, porque você é teimosa.
Vão dizer que a culpa é sua, porque você tinha que ter feito diferente.

Algumas pessoas vão te apoiar, mas nenhuma vai te oferecer abrigo.
Outras não vão saber por onde você anda.
Muitas não vão saber o que te dizer.

Só você pode se ajudar.
Só você sabe o que é melhor para sua vida.
Só você sabe de suas dores.

E só Deus vai te dar forças para começar tudo de novo.

05/03/2007

Sempre teremos Bali

Histórias de amor. Cada uma com suas particularidades. Alguns planejam os nomes dos seus futuros filhos, o casamento ou alguma outra forma bonita – porque histórias de amor devem ser bonitas –  de escrever o “felizes para sempre”.

Uma vez minha história se passaria em Bali. Um dia, eu e o amor da minha vida, iríamos juntos para lá, e no meio daquele cenário paradisíaco teríamos o momento mais mágico da nossa história. Dos planos, não lembro os detalhes, mas o sonho virou parte da nossa realidade: um dia iríamos a Bali. Certeza.

Aquela história de amor acabou, e Bali ficou guardada na estante.

Houve outras histórias, outros cenários. Alguns influenciados por filmes e livros, que ajudam a imaginação. Quem nunca sonhou com Paris ou Barcelona após assistir a algum Woody Allen? Quem nunca sonhou em transformar sua história de amor na mais linda de todas? E seremos felizes para sempre, claro. Porque todo mundo quer ser feliz para sempre com o amor da sua vida, e não custa nada que seja um pouquinho em Paris. Ou seja lá onde for.

Minhas últimas histórias não sobreviveram a tempo de programar ou imaginar cenários. Dia desses vi umas imagens de Bali e lembrei da história guardada na estante. Senti falta do coração aquecido. Como uma boa romântica, sou nostálgica, mas não sinto falta do passado exatamente. Sinto falta de viver histórias de amor, dessas que nos dão asas para sonhar, e, quem sabe, realizar. Dessas que enchem o coração da gente de esperança e de conseguir ver o céu sempre azul ou sempre cheio de estrelas – e ser piegas sem a menor vergonha.

É difícil encontrar alguém que saiba voar com a gente. Normalmente acho que sabendo voar, posso levar o outro comigo. Faço de mim a protagonista e tento fazer do outro apenas mais uma peça do cenário para que meu sonho seja realizado. Pobre garota… Não é assim que funciona. Se o outro não quer, não sabe, não pode, não é você que lhe fará voar. Histórias de amor não são escritas com antecedência. Bem, não assim sozinha.

Coloquei Bali de volta na estante.

Seria mais fácil escolher os nomes das crianças?

Nostalgia

Dia 6: Uma foto que te dá saudade

Para quem hoje assiste “A turma do Didi” (ainda existe?), nem imagina a frustração de quem adorava Os Trapalhões. Primeiro, porque eles eram tudo que a gente tinha em relação à TV e cinema. E para TODAS as idades. Eu nunca iria imaginar que “Os Trapalhões na guerra dos planetas” era uma sátira à “Guerra nas estrelas”. Aliás, o que era “Guerra nas estrelas”? Não lembro de ter acesso ao mundo exterior. Não lembro muito da minha infância, mas lembro da ansiedade de assisti-los na TV, e mais ainda no cinema. Minha mãe ficava tão ansiosa quanto eu. Eles eram, ao mesmo tempo, desde nossa Xuxa até nossos George Lucas ou Steven Spielberg da vida.

Uma pena ter que lembrar do passado como se fosse o melhor de todos os tempos. Culturalmente tenho a impressão de que cresci em tempos melhores que minha filha. Fico lhe imaginando assistindo “Sítio do Pica-pau Amarelo” ou brincando de roda. Marina NÃO SABE cantar “Atirei o pau no gato”, gente. Um clássico! Bem, até sabe arranhar um pouquinho, porque ouviu não-sei-onde com não-sei-quem, que era amigo de não-faço-ideia. Mas saber, sabeeeeeeer, não sabe.

No entanto, mesmo um pouco nostálgica (e um pouquinho frustrada), devo reconhecer que com quatro anos minha filha tem acesso a muito mais informações do que eu quando tinha quinze. Complicado é conseguir manter um filtro que jogue fora o que não presta. Fico orgulhosa quando lhe ouço cantarolando algo que costumo ouvir, e morro de desgosto quando canta (AND dança!) pérolas como “Ai, se eu te pego…”. E penso: “quem me dera lhe ensinar só o que pode”. Mas, ainda bem que não posso! Ainda bem que existe um mundo muito além de mim e do que imagino.

Sim, sinto falta dos Trapalhões, mas vamos deixar isso para minha psicóloga ou para trocar ideias na próxima palestra sobre “a influência do passado nos dias de hoje”? Porque, sentir falta do passado… ahhh, isso eu não sinto não, senhora. Se minha filha quer cantar “Ai, se eu te pego”, que cante, mas que saiba a diferença/tenha noção do que é bom ou ruim. Não é para isso que estou aqui? Assistir aos Trapalhões era maravilhoso, mas passado só é bom pra gente saber quem a gente é. O lugar dele é no banco de trás.

Quem tem barco a motor, não insiste em usar os remos. Né, Renato?

Teoria evolutiva

Acredito que todo ser humano tem o dever de evoluir. A gente precisa crescer, melhorar, facilitar, se achar, mas odeio mudar. Mudar, para mim, só quando não está bom. Não troco o certo pelo duvidoso, porque me culpo pela incerteza e pela suposta má escolha. Não mexo em time que está ganhando. Não suporto a idéia, nem a mínima probabilidade de errar, mas é vital andar para frente. Sempre.

Já me apaixonei muitas vezes, porém, nunca me apaixonei por um determinado homem, assim, incondicionalmente. Todas as vezes me apaixonei pelo que ele é naquele momento. Quando ele cresce, meu amor amadurece. Quando ele muda, eu continuo apaixonada, mas pelo que ele foi, me tornando, inevitavelmente, uma pessoa saudosa e triste.

Quando eu era adolescente, tive um término de namoro que foi meio traumático. Eu não aceitava o fim, e durante muitos e muitos anos essa perda atrapalhou outros relacionamentos. Eu achava que nada mais ia me fazer tão feliz, porque ninguém era o suficientemente bom, o suficientemente bonito, o suficientemente educado ou suficientemente inteligente. Anos se passaram, e um dia nos encontramos por acaso. Ele continuava lá no pedestal, exatamente no mesmo lugar inatingível por mortais. Aproveitamos o encontro e fomos almoçar. Conversamos, rimos, brincamos…sim, foi uma tarde ótima, porém, quando nos despedimos e ele foi embora, eu sentei na calçada (acredite!), e me senti num buraco sem fundo. Quem era, meu Deus, aquele homem? Eu simplesmente não o conhecia. NEM ELE era mais o suficientemente bom, o suficientemente bonito, o suficientemente educado ou suficientemente inteligente. Foi assustador me dar conta de que eu fiquei ANOS da minha vida presa não a ele, mas sim à lembrança do ele ERA.

Acredito que amadureci ao longo desses anos, social e intelectualmente. Porém, emocionalmente ainda sou aquela adolescente insegura, instável, cheia de medos, que ainda chora quando não consegue explicar. Logo eu, tão agressiva com as palavras, tão decidida e segura das minhas atitudes. Eu, tão adulta, tão responsável, tão (escrota tão) EU!

Mas, cá entre nós, divagações à parte, claro que acabei dando (hein?) uns amassos nele de novo, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Rá. Mas, lá estava eu achando tudo bizarro. Não me reapaixonei. Percebi que por mais que eu não me sinta à vontade com mudanças, andar para frente significa, definitivamente, deixar o passado para trás.