Resistir o irresistível

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Sabe quando você quer algo que se não é ilegal, é imoral ou, quem sabe, engorda? Nada que tire seu sono, sua paz, mas que mexe com seus sentidos nos momentos mais inoportunos. Coisa louca essa de vida da gente, do corpo da gente, da cabeça da gente. Julgo não ter muitos pecados, mas alguns, irremediavelmente, me tiram do céu. Mas, não pensem que tenho prazer pelo que é, quem sabe, proibido. O irresistível é, sem dúvidas, ser proibida.

Empty Garden

banco-da-praca

Who lived here?
He must have been a gardener that cared a lot,
Who weeded out the tears and grew a good crop.
And we are so amazed! We’re crippled and we’re dazed….
A gardener like that one, no one can replace.

Elton John

Saudades, pai.

Amigo de quem?

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Andei me perguntando se tenho bons amigos. Depois me perguntei se eu sou uma boa amiga. E depois de tanto me questionar, eu não soube responder exatamente nenhum dos casos.

Antes que você aí, meu amigo, se ofenda, não é uma crítica. É uma reflexão, porque… Não somos todos humanos? Não estamos todos expostos às imperfeições? Não somos todos maus em algum momento? Não é da nossa natureza sermos essa mistura de amor e ódio? O que faz de nós melhores ou piores?

Tenho certeza que em algum momento da minha vida fui invejosa. Tenho certeza que já fui falsa, mentirosa, mesquinha, egoísta. Se você me perguntar em que momento, eu não sei, mas o amigo sabe. Assim como eu sei dele também. Talvez eu seja ruim? Acho que sim, quem sabe? Às vezes eu não ligo? É, não ligo. Por quê? Porque todas as vezes tive justificativas que dei para mim mesma. Em minha defesa, sei que muitas vezes errei tentando acertar. Outras, errei, porque errei.

Acredito, quase que religiosamente, que alguém que reclama do que atrai, da vida injusta que lhe traz toda natureza de “amigos” ruins, seja uma pessoa rejeitada pelo seu meio. Se você só atrai falsidade, você é uma pessoa fraca. Se você atrai fofoca, você é fraca. Se você só atrai infidelidade, você é fraca. Você não é vítima, você é fraca. Você não é boazinha, você é fraca. Você permanece nesse ciclo vicioso de palavras e atitudes medíocres, porque você não consegue andar para frente.

Outra certeza que tenho é que quanto mais se brilha, mais ofuscados outros se sentem. As pessoas criticam o que você veste? Você brilha. Criticam o que você fala, como fala, o porquê fala? Você brilha. Subestimam suas conquistas? Você brilha. O que você faz com seu corpo incomoda? Você brilha. “Ainda” falta você ser qualquer outra coisa que você não é? Você brilha. Você anda para frente e tentam te trazer para trás? Você brilha. Te acham muito feliz? Você brilha. Você consegue sorrir, mesmo que o mundo inteiro acha que a vida está difícil demais para você achar graça? Você BRI-LHA.

Claro que não sou esperta, nem tenho sensibilidade o suficiente para saber me proteger das fatalidades de vida. Também não sei ensinar a se protegerem de mim. Sim, vamos nos decepcionar, e vamos decepcionar os outros. Eu tenho justificativas, e o pior é que os outros também. O que eu aprendi foi a, minimamente, perceber que desaprovo certas atitudes e valores num relacionamento. Evito que se repita determinadas situações, para o meu bem estar emocional. Faça o mesmo comigo, caso seja necessário.

Interessante que outro dia li sobre pessoas que saem de nossas vidas, porque Deus nos protege, ou que a energia dela era diferente da sua, coisa e tal. Mas, por que o protegido sou eu? Por que sou o centro do universo e as pessoas entram e saem da minha vida para o meu aprendizado, para meu livramento, para que minha luz seja protegida de energias cosmicamente negativas? Na moral? Porra nenhuma. Está tudo misturado. O que temos que fazer é buscar o nosso espaço. Buscar pessoas que estão de acordo com a nossa sensibilidade.

Acredito que a essa altura do campeonato consegui reunir grandes pessoas que fazem parte da minha vida. Pessoas que admiro de alguma forma e que estão em sintonia com meus valores. Acredito também que é recíproco. Nunca seremos suficientemente “não-decepcionantes”. Nem com a gente mesmo.

Ser mãe ou não ser, eis a questão

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Com tantas mulheres “lutando pelo direito” de não serem mães, há aquelas que lutam pelo direito de serem em paz.

Em momento algum pensei na questão do aborto. A questão é o impasse que há entre dois lados que deveriam ter o direito de suas escolhas, independente dos motivos. Tenho amigas solteiras, preocupadas com seu relógio biológico. Mulheres fortes, independentes, que, por algum motivo que não sabem explicar, mas gostariam de ser mães. Tenho amigas casadas, que tentam há anos, e não conseguem engravidar. Assim como existem mulheres que estão muito bem com suas escolhas. Casadas ou solteiras, sem filhos e felizes com sua opção. Não tem papo de relógio biológico, e morrem de tédio com as cobranças das tias ou qualquer outra pessoa inconveniente que tenta impor um filho para sintam a sublime sensação ser uma mulher “completa”.

Particularmente, ser mãe não fazia parte dos meus planos. Eu não tinha paciência com amigas mães. Sair para almoçar com filho é um pesadelo. Não dá para conversar sem ser interrompido. Criança quer água, quer fazer xixi, quer qualquer coisa que você não quer participar. E para falar a verdade, até hoje, sair com amiga com filho SEM a minha filha, nem pensar. Eu que não vou ficar me fazendo de mãe compreensiva com o próximo, justamente no meu momento livre.

Sim, criança é muito chato. Criança chora e depende de você para tudo. Enquanto Marina usava fraldas e tomava mamadeira, eu me sentia a mais corna do mundo, carregando uma bolsa de bebê para cima e para baixo. Ali tem fralda, Hipoglós, lenço umedecido, água, leite, brinquedinhos (que eles odeiam já), toalhinha de mão, chupeta e roupas extras. E eu como sou solteira (e sem carro!), sempre carreguei Marina e a bolsa sozinha. Ninguém tinha paciência. E na praia? Nem te conto.

O cansaço físico e emocional é indescritível. Se Marina fica doente, eu não durmo. Não só porque estou cuidando dela, mas também porque fico angustiada. Enquanto ela não melhora, parece que eu não respiro.

Já li alguns textos de mulheres que não acreditam em mães felizes. Mães são seres exaustos, que deixam de cuidar de si, que abrem mão da sua independência, deixam de ser livres, escravizadas pela maternidade, tadinhas.

Olha, não deixa de ser verdade. A princípio a gente fica tão exausta, que os poucos minutos que “sobram” a gente só quer dormir. Perde-se a vaidade e a certeza de que aquela vida LOKA que tínhamos, virará histórias incríveis para nossos lindos netos.

Mas, por outro lado, existe uma história lá no final daquele armário que você entrou para se esconder. Uma espécie de Nárnia. A primeira vez que ouvi o som do coração da minha filha foi a sensação de amor mais indescritível de toda uma vida. Dizem que é maravilhoso voar de asa delta, que é uma experiência incrível. Acho que ser mãe é essa experiência radical. Porra, criança chora pra caralho. Tem que dar de mamar, tem que dar banho, tem vacina, tem pediatra, tem não sei o quê que aparece do nada e tem que correr para emergência. Tem gripe, tem febre, tem nebulização. Tem que se VIRAR para dar remédio, porque a criança chora, cospe, vomita. Aí, corre de volta para o hospital, e arruma uns três enfermeiros lutadores de UFC para conseguir segurar a criança para dar injeção. E mais: minha filha me olha do tipo “você me traiu”.

Não, eu não amo ser mãe exatamente. Eu amo DEMAIS a minha filha. Amo ver minha filha feliz. Amo fazê-la feliz. E eu nunca soube de histórias de amor que fossem fáceis. Posso fazer uma lista infinita de “contras”, mas te dou apenas uma razão para ser mãe: todo amor que a gente sente.

No começo é mais difícil e cansativo. Porém, à medida que a criança vai crescendo vai ficando mais fácil. Elas ficam mais independentes… Mais caras também! Consequentemente, a gente vai se moldando à nova vida. Volta a vaidade, o tempo pra gente, para os amigos… E Marina já sabe que também gosto de gastar dinheiro comigo, e que espere a minha vez. Ela é minha melhor amiga e melhor companheira. DE VERDADE. Adoro levá-la para passear… Mas, apesar de sob um forte olhar de pressão e traição, não, hoje mamãe não vai levar você. Sim, a gente se consegue de volta!

Ninguém mente quando diz que é feliz com sua escolha… Só aquelas pessoas que precisam subestimar as escolhas dos outros como justificativa.

Se seu relógio biológico tem te incomodado, eu te diria para não pensar nisso, não. Ser mãe dá um trabalho danado! Para quem quer uma nova fase da sua vida conjugal, um amor em comum, eu diria que é isso aí! E para quem diz que não quer ter, é isso aí também! É isso aí para todas as escolhas e motivos! Mas, por que não falar o mesmo para a outra preocupada com a idade? Porque ela está preocupada com a idade! É outra discussão. Quase a mesma que o medo de ficar solteira para sempre. E sobre isto falaremos outro dia.

Bem, agora preciso parar de escrever, porque Marina quer usar o computador. Não tem outro, não? Tem, mas ela gosta deste aqui. (Ah é, tem hora que ela acha que manda em tudo)

Nós, sorvete e shopping

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Dia desses estávamos eu e minha filha tentando comprar um sorvete no shopping. Fomos aos três quiosques do McDonald’s e não conseguimos. Um, porque a gente tinha que enfrentar junto a mesma fila com as 150 mil pessoas que tentavam comprar seu lanche. No way. No outro, vazio, o computador não estava funcionando. No último, lotado, na nossa vez, fechou um caixa. E, também na nossa vez, o outro caixa fechou, porque acho que acabou o sorvete do planeta.

E eu estava como? De boa.

Na farmácia, uma fila quilométrica. Sabe farmácia pequenininha de shopping? Então. Quando cheguei, finalmente, ao caixa, adivinhem? Não fechou, porque era único, mas o sistema saiu do ar e ficamos ali esperando. Se Marina não me pedisse todos os doces expostos, eu diria até que eu estava imune ao universo. (E estava quente, hein?)

Não sei qual é o meu critério, mas sou absolutamente capaz de ver o mundo se acabando e ficar lá quieta esperando. Acho até que é por isso que sou uma pessoa fácil de lidar. E é daí que vem a impressão equivocada de que sou uma pessoa de boa convivência. Porque uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Quase nunca sinto algum tipo de necessidade absurda de falar tudo que eu quero, na hora que eu quero ou pra quem eu quero. Mas, no dia que eu CISMO, meu amigo… é um estrago. Eu falo é de um tudo, sem usar UM palavrão. Se bem que… “foda-se” é palavrão?

O única pessoa no mundo que conhece meu termômetro é Marina. Nem minha mãe sabe. Aliás, nem eu.

Mas, conseguimos comprar um sorvete. Não era bem o que ela queria, mas, como eu disse: eu estava de boa. No máximo fiz uma carinha de deboche, que pra quem sabe ler é “parabéns, vocês são horríveis”. Acho que ninguém notou. Só Marina que riu muito.

2016

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2016 foi um ano que me deixou exausta em relação às pessoas. Não é falta de amor ao próximo… É uma frustração. Eu sempre soube que ninguém é perfeito (inclusive eu), mas nunca havia me dado conta do quanto todos se acham absolutamente certos, invencíveis, imbatíveis. Que preguiça dessa gente cheia de caráter. Que preguiça de gente que vai pro céu. Que preguiça de quem quer o melhor para mim. Que preguiça!

2016 foi um ano de saudade. Saudade do meu pai, que se foi há pouco mais de um ano.

2016 foi um ano que fiquei mais pobre (não tenho vergonha desse status). O Estado quebrou, acumulei dívidas, e precisei voltar para casa da minha mãe. Sim, foi o ano que perdi meu espaço. Perdi minha liberdade de deixar o tênis onde quisesse, de não ter que ficar explicando toda hora o que estou fazendo, aonde vou, com quem e o porquê.

2016 foi um ano que tentei mudar o rumo da minha vida. Absolutamente todos os caminhos e todas as portas estavam fechadas. Insisti em relacionamentos velhos, que eu nem queria mais, só para ter a sensação de que meu coração estava batendo ou que eu poderia consertar e ter um novo recomeço. Graças a Deus essa porta também se fechou.

Daí então que chega um momento da vida da gente que a gente tem que viver aquilo ali. A gente tem que ficar quieta e esperar a tempestade passar. O buraco é fundo, é escuro, faz frio e você está sozinha. Deus existe, sim. Se Ele está te olhando? Dizem que sim. Mas, eu prefiro não entender essa parte.

2016 então foi uma merda? Foi.

Fui infeliz em 2016? Não. Perdi (quase) tudo em 2016, mas humor e esperança faz parte do que sou e é o que me faz andar para frente. Daqui a pouco chega a minha hora.

Aprendi que família é tudo. A gente sempre soube, mas, olha, é tudo de verdade, de verdade. Mais que tudo no mundo. Aprendi que sou a melhor mãe EVER. Aprendi que aluno precisa da gente quase como precisa da mãe. Acredite. Aprendi que pessoas criativas gostam de mim. Aprendi que sei conquistar um coração difícil. Aprendi que sou uma pessoa boa. Aprendi que boas intenções não substituem ações. Aprendi que que cada um ama do seu jeito, e não como a gente quer. Aprendi também que a gente aceita se a gente quiser.

Não vou criar metas positivas para 2017, apesar do meu coração estar cheio de sonhos. Por enquanto só desejo que 2016, com tudo que ele significou para cada um, vá embora e não volte nunca mais.