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  • A menininha

    Desde que entrara na rua uma menininha lhe chamou atenção.
    Ela era loirinha, pequenininha…sentada na calçada olhando fixamente para um terreno cheio de entulhos. Ela chorava segurando sua boneca. Ele então para e pergunta:

    – O que você está fazendo aqui sozinha, mocinha? E por que está chorando?
    – Moço, cadê a minha casa?
    – Onde é a sua casa?
    – É ali. – apontando para o terreno.
    – Você deve estar enganada… Ali não tem casa alguma … É só um terreno cheio de entulhos… Como você veio parar aqui?
    – Não, moço… É a minha casa… Cadê a minha mãe?
    – Qual o seu nome?
    – Cadê a minha casa, moço? Cadê a minha mãe? Por que tá tudo vazio? Por que eu não to ouvindo meu cachorro? Eu juro que minha casa é ali, moço…chama a minha mãe…chama, moço…
    – Vamos ali… vou te dar um copo d´água, você se acalma e me diz o nome da sua mãe pra gente chamar ela pra vir te buscar…ok?
    – Vou ficar aqui esperando minha casa voltar.
    – Vou buscar a água para você…

    Na volta, a menininha não estava mais ali. Achou estranho… Há tantos anos morava naquela rua, e só prestava atenção naquele velho terreno quando a prefeitura acordava toda vizinhança com seu caminhão de lixo, tentando dar um jeito nos entulhos, onde havia uma placa grande escrita “proibido jogar lixo”.

    Os dias se passaram, e era inevitável não lembrar daquela menininha misteriosa chorando em frente àquele terreno abandonado.

    Um dia a placa estava no chão, e o terreno todo limpo. Disseram que um supermercado famoso seria construído no local. O homem resolveu entrar para que, depois de alguns anos, pudesse contar aos seus amigos, com aquele ar pomposo, histórias do tempo onde “esse supermercado ainda era só um terreno abandonado.”.

    Antes de sair, notou que no grande muro, todo sujo ainda, havia alguns desenhos. Teria sido uma escola infantil, ele pensou. Chegou mais de perto, e pôde ler “papai e mamãe te amam”.

    O homem nunca entendeu essa história. Nunca mais soube da menina ou o que havia ali.

    O supermercado não foi construído. Aproveitaram o espaço e fizeram um enorme estacionamento rotativo.

    ———

    Texto originalmente escrito para o blog Amor Crônico, em 08/04/2014.

  • Querido Diário – #54

    Mas, aqui, deixa eu explicar a questão da maldição que falei no nosso papo anterior, porque parece que fiquei daqui jogando um monte de vudu no rapaz.

    Ora, quando uma  pessoa faz uma escolha, que, talvez, seja julgada como injusta, não lhe agrega automaticamente o encosto de um caboclo amaldiçoado, que lhe fará desejar a morte de uma vida miserável. Claro que não. Bem, acho que não (MUAH!).

    Na verdade, como uma autêntica representante de péssimas escolhas, posso afirmar, com conhecimento de causa, que o número de caboclos é proporcional ao estrago que a gente faz. OUCEJE, o quanto você precisa infernizar a(s) vida(s) do(s) outro(s) para ser, quem sabe, feliz. Tudo é o coração, né? Aquele levadinho. Às vezes a gente diz que não manda nele (o que eu até acho que é verdade, mas minha analista tem respaldo pra me defender) e decide segui-lo, mesmo com aquela vozinha lá no fundo gritando “pelo amor de Deus, você está certa disso?”. Pior que a gente sempre tem certeza.

    Por outro lado, meu querido, a gente vai fazer o quê? O “certo” é impiedosamente relativo. Ninguém é obrigado a ser infeliz. Queria muito o discernimento trazido pelo bom senso, e por ele, lá na frente, tudo se encaixaria no seu lugar. Mas, também ficaríamos horas discutindo o que é bom senso e para quem. Não é com calma que a gente quer ser feliz. A gente quer ser feliz agora, com pressa, o tempo todo. Ora, não mereço? Pergunto-me todas as vezes que estou prestes a passar por cima de um monte de montes de coisas pelo caminho.

    Amor, na minha vida, nunca foi tranquilo. OUCEJE.

    Mas, peraí. Péssimas escolhas quase sempre são apenas péssimas escolhas. Não quer dizer que sou uma filha da puta egoísta all the time. Geralmente está muito mais ligada à baixa autoestima do que com insensibilidade ou, quem sabe, apenas o azar. Então para de me olhar desse jeito.

    Uma vez ouvi (ou li) alguém dizer que ninguém é feliz quando a sua felicidade é a infelicidade de outra pessoa. Como eu disse ali em cima: o certo é impiedosamente relativo… então, não problematizemos esta frase. Mas, pode refletir.

    Eu vivo toda quebrada. Acho que preciso aprender que pra vida seguir não preciso olhar só o que está na minha frente. Posso olhar para direita ou para esquerda também, ora. Mas, não. É pra frente que se anda, dizem. Até que aparece um precipício. Tenho medo, não. Vou me jogar com certeza. Pode ter uma rede lá embaixo, pra doida que se joga, né? Um acolchoado, uma piscina… qualquer coisa para amortecer a queda que a gente tá apostando. Mas… tem, não, gata. Uma queda vai ser sempre uma queda.

    Precisa nem entender de Física pra saber que a gente cai pra baixo ou sobe pra cima. Basta o pleonasmo.

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  • Querido Diário – #53

    Ora, querido, veja como são as coisas… Hoje, enquanto tomava meu café matinal, e me atualizava de todo conteúdo das redes sociais, que eu havia perdido na madrugada (tipo, um total de três atualizações), me deparei com uma cena intrigante… ou melhor, stalkeante.

    Apareceu no meu feed do Instagram um casal que eu desconhecia. O moço, não. O moço já sigo há algum tempo. Não somos amigos… Só acompanho seu trabalho. Mas, é aquilo, né? A gente presta atenção no movimento. E assim que comecei a segui-lo ele postava fotos do seu recém casamento. Casal bonito, públicas declarações de amor, essas coisas fofas. BUT, de uns tempos pra cá, tô notando uma mulher diferente com uma certa frequência. Bem, se EU DAQUI TÔ NOTANDO, cê imagina LÁ. Daí, que a tal moça frequente nas fotos agora tem nome, sobrenome e status. “Não há namorada mais linda! Te amo”. Posso estar muito enganada, mas DAQUI senti a dor da ex dele LÁ.

    Sim, tô fazendo fofoca. Direito adquirido na quarentena.

    Fiquei imaginando aquele antigo casal feliz. A carreira do sujeito começou a decolar, a abrir várias portas (viu minha implicância com portas?)… Imagino cada abraço, cada pulo de felicidade pelo sucesso do outro. Como que ela ia imaginar que o sucesso profissional dele o levaria a outra pessoa? Bem, a gente desconfia, né? Mas, a gente prefere confiar no amor do outro do que torcer contra seu sucesso, claro.

    Já passamos da fase de botar a culpa na outra mulher, né verdade? Mas também sei que espera-se um pouco de empatia. Sei, porque foi algo que já ouvi. Sua briga deve ser com ele e não comigo, eu disse uma vez. No entanto, me sensibilizei quando ela (em questão) me perguntou se eu já tinha ouvido a palavra: sororidade. Não me senti culpada por algo recíproco onde a traidora não era eu. Mas, serviu para eu repensar alguns valores. Não gostei de me ver tão “o problema é seu e dele”. Achado não é roubado. Mas, cê leva pra casa o pet de coleirinha, com endereço e tudo? O pet vem abanando o rabo, né? Ou a gente acha lindo e vai lá brincar um pouco. Sei como é. Mas, a pergunta mexeu comigo.

    Sobre ele, bem… Acredito que existe o momento de escolha. E se foi algo, que provavelmente foi “inevitável”, segue o baile. Ninguém é obrigado a viver o que não quer mais. Mas, cá entre nós, ele já está amaldiçoado pelos próximos, sei lá… resto de sua vida. E não é maldição de ex. Escuta bem o que tô dizendo… A vida nos dá o direito de escolha, mas ela nos cobra o custo.

    Bem, há a possibilidade de tudo isso ser uma interpretação equivocada e tendenciosa, onde o homem é sempre o filho da puta infiel. Vai que a ex-mulher dele já tinha arrumado outro ou que ela seja uma filha da puta desgraçada, que a mãe sempre avisou “Não casa com ela, meu filho…ela não te merece”. Vai quê?

  • Querido Diário – #52

    C9BA0EBE-16A4-44E1-9F36-5131E2D492D9Hoje vi um beija-flor na varandinha do meu quarto e quase tive uma síncope. Como assim um beija-flor no sexto andar de um prédio? É, sei lá que fixação por beija-flor é essa. O resumo dessa história é que botei um bebedouro pra ele, e de repente lá estava estava eu, Cinderela, falando com vários passarinhos sedentos. Coisa linda.


    Essa graminha aí é chamada “graminha de gato”. Pode ser chamada de “graminha de corno” também, porque acho que fui a última a saber. Pega um pote, pega terra, pega milho de pipoca, planta, joga água, outro dia joga de novo, e tchanammmm! Nunca foi tão fácil ter uma plantinha. A gata às vezes vai lá dar uma bicadinha, mas no dia que um gato fizer algo que a gente “manda”, troca os óculos, porque é um cachorro.


    Sabe, querido… Sem querer parecer clichê demais com esse papo de mudança existencial da quarentena, blá, blá, blá… Sabe “aceitar aquilo que não podemos mudar”? Nunca fez tanto sentido. A gente preso aqui faz o quê? A gente tem um problema e não consegue sair pra resolver. Dá pra sair? Não. Dá pra resolver? Não. Engaveta esse problema aí. Veja que nem precisei ir pra Índia para conseguir essa mansidão. Cinquenta e seis dias em casa. Comer, rezar, amar my ass.


    Tenho nenhuma metáfora para simular uma faxina… Nem consigo ser poética com “Hoje joguei tanta coisa fora”. Mas, sabe quando a gente dá de cara com uma coisa e tem certeza absoluta que não serve mais pra nada? Pois é! Não é estranho? Em épocas de mudanças necessárias, a gente costuma fazer a tal faxina e termina a fase com, sei lá, um corte de cabelo totalmente novo. Mas, estou aqui, com dois dedos de raiz branca, com a total sensação de liberdade que só um confinamento dá.


    Nop. Não estou sob efeito de qualquer remédio.


    Há os momentos, raros, mas há, que eu acho que tô na Matrix. Sei, clichê também, referência batida, mas cê não pensou nisso não, hein? Ou algo muito, muito parecido?

    Como uma boa menina, todo dia tô aqui aprendendo uma lição. Um dia acho que o universo quer que eu me conheça melhor, outro dia acho que o universo tá querendo que eu conheça o outro. Sabe aquele filho da puta que você desconfiava? Na quarentena a gente tem certeza. Também tenho visto as voltas que o mundo dá. Sabe aquele filho da puta que você sempre teve certeza? Na quarentena, num é que ele tá precisando de uma mãozinha?

    Ora, querido Diário…tempos difíceis para os cristãos. Tô aqui pensando na Matrix, mas, vai que esse é o famoso juízo final?


    Acho que vou precisar tirar da varanda o bebedouro de passarinhos. Ângela (a pequena felina da família) está ficando nitidamente bem estressada com o movimento. Algo me diz que dei uma infernizada na vida dela para que meu dia ficasse mais bonito.

    Outra lição, Jesus. Entendi.

     

  • Querido Diário – #51

    Ora, querido, você veja só… Hoje é Dia das Mães. Tenho até muito o que dizer sobre isso, além da tentativa de criar um texto bonito, mas vou te dizer que o dia está complicadíssimo.

    Tempos difíceis para quem ama.

    Vi filhos fazendo declarações de amor para suas mães. Eles na calçada e elas na janela. Chorei demais.

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    Hoje não tivemos o almoço tradicional em família. E nem pudemos comemorar juntos o aniversário do meu sobrinho, que hoje faz cinco anos. Fizemos uma live (chamada de vídeo, na verdade) na hora do parabéns, e graças a Deus ele estava feliz da vida fantasiado de Homem Aranha, com o bolo, vela e a mesa toda enfeitada com super heróis.

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    Sou mãe. Mãe sozinha. Existe uma rede de apoio, que sem ela, nada do que somos hoje (Marina e eu) seria possível. É ingratidão chamar nossa família como “rede de apoio”, porque somos uma unidade. Não existe nós e eles. Existimos todos juntos. Usei o termo como um divisor entre o envolvimento materno e paterno na criação da minha filha. Bem, interpreta aí.

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    Depois que meu pai faleceu, ficamos mais dependentes um do outro emocionalmente. Nos cuidamos mais um pelos outros do que por nós mesmos. Cada um se tornou responsável por si, para que ninguém passe por mais uma perda.

    Minha mãe, por exemplo, cisma que remédio faz mal. Qualquer remédio. Então vira um ciclo vicioso: os remédios que o médico disse que ela vai precisar tomar pra sempre (como o de pressão) ela para quando acha que melhorou e não precisa mais. Daí leva uns dias, ela passa mal, e tem que voltar a tomar os remédios tudo de novo, que ela vai deixar de tomar quando achar que está melhor. E não é um mal estarzinho que ela sente a cada recaída. Cada vez chega mais próximo a um AVC. E ela jura por tudo mais sagrado no mundo que está tomando cada um certinho. Até que eu tive uma crise de ansiedade, dessas que a gente não sabe de onde saí, mas tem que correr para o médico, e ela foi comigo. E no meio de um monte de coisa que estava na minha cabeça ao mesmo tempo, como se o médico fosse um juiz, eu avisei aos prantos: “…e ela não toma remédio direito! É mentira!”. Então, além de ter ouvido um sermão sobre a própria saúde, precisou presenciar meu momento de total decadência emocional para, finalmente, tomar seus remédios todo santo dia.

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    É, eu sei que meus pensamentos hoje estão bem fora de ordem. Prometi que falaria com você todos os dias, mas fui atropelada por (mais) um problema, que andou me calando e trazendo de volta aquela enxaqueca, que não há analgésico no mundo que dê jeito. Vamos ver quantos longos dias vai durar desta vez.

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    Em algum lugar da minha casa deve ter um formigueiro, que preciso achar e colocar a plaquinha dele: PROBLEMAS FODA. Sinalizando, quem sabe não tomo mais cuidado, presto mais atenção ou sei lá.

    Mas, cá entre nós, vô te falar a verdade. Pareço essa pessoa controlada, que vai achar um formigueiro de problemas foda pra colocar uma plaquinha pra ter o cuidado de não ficar pisando etc. Mas, no dia que eu achar essa porra, não vai sobrar UMA.

  • Querido Diário – #50

    Ora, querido, hoje o dia está frio, chuvoso, e meu agasalho é um edredom velho velhinho. Eu disse que não te deixaria, e essa é uma das maiores provas. Tá entrando um friozinho pelas brechinhas dos braços, o que me faz pensar que lealdade só pode ser algo que levo muito à sério.

    Na TV, tem live do Rogério Flausino e seu irmão Sideral cantando Cazuza. Cantando logo quem. Aquele que é certeiro tão dentro da gente.

    Aliás, tive uma oportunidade linda de assistir com a minha filha a esse show, apresentado num dos palcos do Rock in Rio. Cantei todas, me emocionei, e quase achei que o noite já poderia terminar ali. Mas, Marina, munida de minhas frases e usando-as contra mim, disse: que morte lenta e horrível.

    Ué, 13 anos.”Todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito” my ass. Poesia a uma hora dessas, mãe? Tutch, tutch, tutch, tutch… lá fui eu pro palco eletrônico, para ser a mãe mais legal do mundo, já que estava acompanhada da filha mais legal do mundo. Afinal, me enganou direitinho. Deixou eu abraçá-la e tudo, cantar de olhos fechados. Quase acreditei na emoção recíproca. Nunca imaginaria que a atriz estava morrendo.

    Mudando de assunto (não, não deixo você falar, desculpa), hoje tive um daqueles aborrecimentos incríveis, que vai pra uma lista bem especial que estou fazendo. Aproveito a oportunidade para pedir que não me mostre o seu pior na quarentena, ok?Porque eu tô anotando para não esquecer. Bem, anotar é só uma palavra que uso pra fingir que às vezes esqueço as coisas, como se eu fosse dessas pessoas boas.

    Costumo dizer que há duas datas desumanas para fazer o mal a alguém: no dia do seu aniversário e no Natal. “Mal”, tá, querido? Uma apunhalada nas costas, uma puxada de tapete, um comentário maldoso… Esses desvios de caráter.  Aniversário é aquele dia que a gente espera (e merece!) ser tratado com todo amor do mundo. E, Natal é um aniversário coletivo. Então, fica na suazinha esses dias, tá? Não tenha o dom de estragar o dia feliz de alguém.

    Ah, mas tem dia bom pra fazer o mal? Perguntou o cansativo engraçadão.

    Tá, mas e a listinha da quarentena? Ora, meu amigo, a gente tá com a sensação de que tem um trator passando, indo e vindo, e a gente tá bem embaixo dele. Como sanidade tem sido um elemento valioso, claro que amor não é algo que a gente tá conseguindo distribuir. Mas, EMPATIA é fundamental.

    Mas, amanhã falamos melhor sobre isso? Está tarde, e meu sono “tratado” já está levando meus pensamentos não-tratados embora. Se eu demorar mais um pouquinho, amanhã Marina me contará papos incríveis que tivemos, que provavelmente não lembrarei uma palavra.

  • Querido Diário – #49

    Rapaz, eu sento aqui sem a menor noção prévia do assunto a ser escrito. Estou fazendo algo que nunca fiz na vida, que é escrever diretamente no editor do WordPress. Tive até a pretensão de comparar essa emoção à sensação do “quem sabe faz ao vivo”… mas, a verdade aqui é puramente um “se vira nos trinta”.

    Calma, querido, não estou enchendo linguiça. Também detesto aqueles textos que são introduzidos por “a tela está branca e não sei o que escrever”. Pura tentativa de “gatilho” pra imaginação. Já fiz isso várias vezes, e reconheço quando fazem também. O resultado geralmente é um texto morno, que, se tivermos sorte, de repente, melhora no final.

    Mas, então por que estou fazendo isso, né, meu amigo? Porque não é a tela branca que é novidade. A novidade é o ao-vivo-se-vira-nos-trinta e contaí como foi o seu dia, porque você já tá falando pra todo mundo que seu blog está funcionando.

    Não parece, mas é pressão demais sob uma subcelebridade esquecida. Pois é, tenho essa sub-arrogância célebre, porque um dia (há anos, tá?) fui pesquisar um texto meu no Google, e ao digitar apenas o meu primeiro nome (Danielle, ora), autocompletou com “Winits”, “Means” e “Steel” como opção AND nessa ordem.

    Pensou que a metidez era pelo Jô, né? Nã. Aparecer como opção na busca do Google dá uma sensação de, sei lá, sou foda.

    No entanto, hoje em dia posso botar meu nome inteiro e é difícil até achar resultado.

    A verdade é que a internet era ótima para escrever. Isso foi há mais dez anos. Eram textos leves, bem humorados, éramos mais novos, não tínhamos filhos… Ora, querido, não me olhe com essa cara de quem não envelheceu… sabíamos que um dia usaríamos essas frases saudosas.

    Hoje em dia  quase não tenho seguidores nas minhas redes sociais. Primeiro, porque são privadas, e só autorizo se for um amigo ou amigo de um amigo. Mas, pelo menos 1/3 desses seguidores são amizades que fiz na época que eu escrevia. Alguns nunca vi pessoalmente, mas estão na minha vida mais do que qualquer vizinho. Outros, quase não nos falamos, mas há taaaaantos anos nos acompanhamos que criamos laços afetivos. Alguns lembram de quando falei no meu blog, que estava grávida. Outros lembram do dia que descobri que “É uma menina!”. E a cada ano todos nós lembramos “como se fosse ontem”. Ontem há 13 anos! Igualmente acompanhei namoros, que viraram casamentos. Formaturas e o primeiro emprego! A saída da casa dos pais! Testes positivos de gravidez, aniversários dos filhos, o primeiro dia na escola. E assim como nos alegramos juntos, também ficamos com o coração partido quando algumas portas se abrem.

    Aliás, abrindo um parêntese, que tem a ver com o assunto, mas já aproveitando para encerrar nosso papo de hoje: não tenho a menor afeição às portas. As portas são feitas para permanecerem fechadas. Se elas abrirem, meu amigo, é pra dar alguma m*rda. Ou alguém vai sair ou alguém ficará trancado. Dizem que quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela. Por quê? Se a janela me dá a vista de quem está livre lá fora. E se a porta foi fechada para eu não entrar, tenho nem idade pra pular a janela. Já achei que Deus fosse muitas coisas, mas sádico Ele não é. Mas Ele abre outra porta! Vamos parar com esse looping infinito neste exato momento.

    Guarda aí pra você uma frase que aprendi com a vida: o porta que Deus fecha, ninguém abre. Ah, mas não abre MESMO.

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    PS: antes de publicar esse texto, olhei para TV e estava esta tela de descanso:

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    É, querido Diário… Pensou o mesmo que eu né? Deus abre é caminhos.

     

  • Querido Diário – #48

    Sabe, querido, ainda estou aqui decidindo se estou triste. Feliz, não tô, não. Ora, não vou mentir justamente para você, exibindo um pouco da minha fé, e fazendo um discurso, quem sabe, otimista. Dizer que estou grata e feliz por estar viva, por ter saúde, e todas essas coisas que realmente deveriam ser o bastante para me deixar feliz. No entanto, sinto-me ingrata por neste momento não conseguir ser positiva e resgatar a minha fé. Mas, talvez seja uma boa notícia não ter a absoluta certeza da infelicidade.

    Parece cocaína, mas é só tristeza. Ora, Renato, sou muito filhinha da mamãe para ter a empáfia de experimentar algo ilícito assim. Mas, acredite na disciplina e lucidez da filhinha da mamãe aqui, quando não aumento as dosagens lícitas, que tenho no meu criado mudo. Então, sem hesitar, é só tristeza.

    Para de besteira. Que o sem tarja preta atire a primeira pedra.

    O mais irônico é que ele vai atirar.

    Como diria meu pai: Só existem dois tipos de pessoas no mundo: os que tratam sua maluquice e os que não tratam. Ele se isentava, e, principalmente, não permitia que alguém tivesse a ousadia de incluí-lo em participar de qualquer discussão da família. Ele dizia com orgulho: Eu me trato! E saía. (Mas, se a gente não parasse, ele voltava…mas voltava MESMO)

    Uma vez meu pai chegou PUTO em casa, reclamando de um caixa de banco. Não avisei a ele que me trato, mas avisei que tenho atestado! Interprete aí a ameaça, querido Diário.

    Claro que também sou daqueles que se tratam. Meu pai era sábio. Já tentei usar suas frases em vários momentos, mas não causam o mesmo impacto. Acho que o atestado de um psiquiatra que diz “Cuidado com o cão” tem mais peso do que o de um cardiologista que diz “Coraçãozinho com ódio”. Do cão as pessoas têm medo, né? Ô.

    Nós, emocionalmente instáveis, não somos previsíveis, porque ninguém sabe exatamente o que estamos sentindo. Uma piada não perde a graça porque estamos tristes. Não somos bipolares. Não sentimos uma coisa ou outra, de uma hora para outra. Sentimos, desgraçadamente, tudo ao mesmo tempo. Há muitas emoções que não sabemos nomeá-las, e uma força sobrenatural para equilibrá-las. Somos solitários. Nos chamam de qualquer coisa pejorativa, e dizem que não somos exatamente suportáveis. Justificam dizendo que fazemos tempestades de copos d’água, mas não sabem que o tempo inteiro lutamos para que um pingo não nos transborde.

    Pai, perdoai-vos, porque não sabem o que fazem. Eu não sou Jesus Cristo, desculpa. Não vou pedir perdão a Deus por você, que tá pouco se lixando pra minha cabeça fudida.

    (Senhor, me perdoa por usar o Seu nome e um palavrão no mesmo parágrafo. Em minha defesa, eu tenho atestado.)

    Nenhuma fase passa. O amor não vai embora. Nenhum deles. O ódio não vai embora. Nenhum. O tristeza não vai embora. Nenhuma. A alegria não vai embora. Nada. Você não liga, Você liga demais, Você não dá importância, Você dá importância demais. Você é intensa. Você é fria. Você fala demais. Você não fala nada. E quem, meu querido, você acha que sou afinal? Qual parte de mim você decidiu enxergar?

    Quer um tempinho pra pensar?

    Ou vai me rotular?

  • Querido Diário – #47

    Ora, meu querido, tenho contado os dias meio assim sem noção do tempo, mas meu signo, que não permite descaracterizá-lo, me obriga a seguir rigorosamente a ordem dos números que listei com você. Então, acredite: não pularei nenhum dia (gente, me deixe fazer frases com dupla negação?). Mas, terei que usar com você a frase que mais detesto ouvir da minha filha: Peraí! Já tô indo!!

    Estava eu aqui, bem assim no meio da semana, assistindo a uma série. E preciso compartilhar o momento com você… mas, é necessário que visualize a seguinte cena comigo:  um homem recém separado, consequentemente solitário, sendo abordado por uma colega. Ele estava triste… Ela achou que poderia melhorar o seu dia (e o dela, né?) e declarou seu interesse por ele. Bonita, bem humorada, nenhum drama. Ele não gostou da ideia. Depois de uns dias, concluiu que estava triste o suficiente, então precisava sair AND beber AND conhecer gente nova. A noite foi um desastre.  Então, pensei: por que o excelentíssimo não chamou a mulher, que provavelmente seria a melhor companhia ever? Não posso brincar com quem gosta de mim, eles dizem. Não entendo o que pode ser mais legal do que ‘brincar’ com quem gosta de você, digo eu. Blá, blá, blá, brincar com sentimentos, blá, blá, blá, é diferente, blá, blá, blá, não é você, sou eu.

    É estranho como as pessoas sentem uma certa repulsa por quem está disponível para elas, não é verdade? Ela, a personagem, insistiu em alguns outros momentos. No entanto, quando ele estava quaaaaase aceitando, sua ex esposa aparece para avisar sobre um evento nobody-cares dos filhos. Então, ele, todo sorridente, contemplado pelo evento nobody-cares com sua ex, foi à sala da mulher, e negou, novamente, o convite.

    Agora corta a cena para outros personagens. Um homem triste, que relembra da mulher falecida.

    Calma, não estou usando uma cena quase funesta para impactar o público. Mas, achei importante destacar o quão desapercebidas/desprezíveis/desprezadas passam, cotidianamente, nossas emoções. A gente já ouviu falar o quanto, na perda de um sentido, aguçamos melhor um outro. Sei que ninguém aceita com mansidão a perda ou a troca de um sentido pelo outro. Nem uma pessoa pela outra. Mas, perdas inevitáveis, por relacionamentos rompidos, por exemplo, é a falta de um pedaço, mas não é, mesmo destroçados, o nosso eu inteiro.

    Em suas lembranças, a falecida esposa do personagem dizia que a vida é curta demais e nunca devemos perder a oportunidade de declarar o que sentimos. Sim, a vida é curta demais, concordamos. E, particularmente, desde que meu pai faleceu, essa frase saiu de tantos roteiros que já vi por aí, para fazer total sentido na minha vida.

    Sou muito ansiosa para viver como se todo o dia fosse o último. Seria o caos. Mas, sempre falo o que sinto, porque por mais que eu não viva como se não fosse o último dia, tenho certeza que o amanhã ainda não existe. Mas, para aqueles que ainda não saíram de roteiros, uma declaração é um texto disponível demais para o resto de uma vida longa.

    Não sei se você entendeu.

    Não há necessidades urgentes de fazermos declarações de amor a toda hora para nossos pais, nossos filhos, nossos amores. Ou talvez seja esse exatamente o momento.

    Todos sabem que o nosso tempo não é o mesmo tempo do outro. Nossa vida não é um roteiro uniforme. Nossas histórias só farão parte uma das outras para aqueles que dão sequência às falas, aos cenários, às trilhas sonoras, às emoções. Caso contrário, não estamos no mesmo livro. Ou a página foi virada. Uma vez me disseram “Não queria que nossa história parasse na página nove”. Hoje sei que aquele livro tinha apenas nove páginas.

    Éramos sonhadores.

    Analogias de autoajuda, foi o que fiz. Mas não pense que foi para você, querido Diário. Foi para mim.

  • Querido Diário – #46

    Ora, querido, não foi possível falar com você esses dias, porque estive ocupada. Queria que fosse com algo prazeroso, mas em tempos de quarentena, mesmo que fosse, não seria (oi?). Ainda mais se tratando de  computadores. Tanto tempo deixados de lado, né? Em casa, tão desprezados, voltaram ao pedestal em tempos de Home Office.

    Aqui temos três: um ruim, outro muito ruim e outro muito, muito ruim. O ruim deixei com Marina. “Ruim”, porque é meio lento, mas comparando aos outros, é quase uma pérola. Até achei que eu mesma poderia dar um jeitinho nos outros dois, mas todo trabalho desgastou um tanto de sanidade que venho tentando manter para outros assuntos. Vencida, um mandei para o conserto. O outro, bem, o outro continuo cismando que é só um jeitinho. Mas, tô aqui escravizada pela ideia que eu mesma criei, que meu netbook pegou só uma gripezinha.

    Mas, peraí que já dou um jeito.