Cheirinho de queimado

Querido Diário #62

Ora, querido amigo, dia desses descobri que um dos amigos dos meus irmãos estava solteiro. Desses amigos que a vida inteira foram casados, e a gente quase sabe o porquê: um cara bacana, bom de papo, inteligente, bem humorado, e, até que se prove o contrário, bom caráter.

Well, well, well… dentre tantas palavrinhas lindas tinha uma em especial, que dá um brilhinho nos olhos: bom caráter. Seu amigo pode ser um ótimo amigo, parceirão (inclusive os nossos), é um excelente filho, prestativo com os vizinhos, família ou pode ligar a hora que for, que qualquer hora é hora para ajudar. A mãe fica orgulhosa.

No entanto (sim, infelizmente “no entanto”), raramente homens são tão fiéis ao que são com o planeta quando o outro é uma mulher. Estou generalizando, certamente. Não há necessidade de informar o seu “achado”.

Em sua maioria, não preciso gastar preciosos caracteres para descrever aquilo que homens negarão para sempre: são iguais com todo mundo. Mas posso listar homens que são ótimos amigos, adorados pela família, vizinhos etc., mas traem, mentem e subestimam suas parceiras.

Não perdi o foco… vou continuar o caso do amigo, peraí.

Eu, como boa mulher resolvida (me julgo “bem resolvida”, mas homens já me julgaram “direta”, num tom duvidoso) não vi problema algum em tomar a iniciativa: bora puxar papo. Se ele der papo, a gente dá mais papo, para quem sabe chegarmos à frase “taí, gostei de você…vai ser legal te ver mais vezes”. Bem, em tempos de quarentena a gente se limita a plantar a semente pra depois, né?

Então eis que chegou o assunto delicado, que eu nem imaginava que existia: “Sou amigo dos seus irmãos. É muita traição com eles ter esse ‘sei lá o que tá acontecendo com a gente'”.

Pausa dramática para Cristina. Não saiam daí.

Tentei argumentar, mas ele não estava confortável com a ideia. Fiquei esperando o “Desculpa, não é você sou eu”, porque, né? Apesar de eu ser até bonitinha, inteligente, boa de papo e pouca modéstia, ele simplesmente poderia não estar afim. Ora, acontece. Feminismo taí, inclusive, pra isso: dar a liberdade ao homem de escolher uma mulher, que está tomando a iniciativa, sem que isso signifique não ser macho pra c*ralho.

Ok, 7×1 pro universo.

Abri o jogo com meus irmãos: Olha, Fulaninho está solteiro, acho ele super interessante, gente boa etc., tomei a iniciativa, mas não deu certo. Fui rejeitada. Beijos.

Mesclando a indignação dos dois irmãos foi mais ou menos assim a vibe: Com tantos homens no mundo você cismou logo com um amigo meu? ECA! Que vergonha! Você pôs em risco ANOS de amizade! Meu amigo de infância! Se oferecendo pro cara! O cara é amigo, é parceiro, não é como esses caras que não prestam que você está acostumada! O que que ele tá pensando de você agora???

Bem, o que ele está achando de mim eu não sei, mas tenho a sensação que estão todos na 3ª série.

Que preguiça de dizer o óbvio, mas dizer o óbvio é o novo normal: Eu sou solteira. E ele também. E tem mais: NINGUÉM PRECISAVA SABER! Sugeri, inclusive. PRIVACIDADE é o nome disso. Se a gente casa, a gente comunica, né? Nossa, que lindo! Por que não contaram antes?

Ai, que preguiça de existir.

Mas, uma coisa particularmente me intrigou: não seria, finalmente, tão legal a irmã ter encontrado e merecido um cara bacana? Para mulher, percebam, não torcem nem quando é a irmã.

Pausa dramática para Cristina.


Obrigada, Ingrid Gomes, pela sugestão do tema. – Feminismo


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