Querido Diário – #52

C9BA0EBE-16A4-44E1-9F36-5131E2D492D9Hoje vi um beija-flor na varandinha do meu quarto e quase tive uma síncope. Como assim um beija-flor no sexto andar de um prédio? É, sei lá que fixação por beija-flor é essa. O resumo dessa história é que botei um bebedouro pra ele, e de repente lá estava estava eu, Cinderela, falando com vários passarinhos sedentos. Coisa linda.


Essa graminha aí é chamada “graminha de gato”. Pode ser chamada de “graminha de corno” também, porque acho que fui a última a saber. Pega um pote, pega terra, pega milho de pipoca, planta, joga água, outro dia joga de novo, e tchanammmm! Nunca foi tão fácil ter uma plantinha. A gata às vezes vai lá dar uma bicadinha, mas no dia que um gato fizer algo que a gente “manda”, troca os óculos, porque é um cachorro.


Sabe, querido… Sem querer parecer clichê demais com esse papo de mudança existencial da quarentena, blá, blá, blá… Sabe “aceitar aquilo que não podemos mudar”? Nunca fez tanto sentido. A gente preso aqui faz o quê? A gente tem um problema e não consegue sair pra resolver. Dá pra sair? Não. Dá pra resolver? Não. Engaveta esse problema aí. Veja que nem precisei ir pra Índia para conseguir essa mansidão. Cinquenta e seis dias em casa. Comer, rezar, amar my ass.


Tenho nenhuma metáfora para simular uma faxina… Nem consigo ser poética com “Hoje joguei tanta coisa fora”. Mas, sabe quando a gente dá de cara com uma coisa e tem certeza absoluta que não serve mais pra nada? Pois é! Não é estranho? Em épocas de mudanças necessárias, a gente costuma fazer a tal faxina e termina a fase com, sei lá, um corte de cabelo totalmente novo. Mas, estou aqui, com dois dedos de raiz branca, com a total sensação de liberdade que só um confinamento dá.


Nop. Não estou sob efeito de qualquer remédio.


Há os momentos, raros, mas há, que eu acho que tô na Matrix. Sei, clichê também, referência batida, mas cê não pensou nisso não, hein? Ou algo muito, muito parecido?

Como uma boa menina, todo dia tô aqui aprendendo uma lição. Um dia acho que o universo quer que eu me conheça melhor, outro dia acho que o universo tá querendo que eu conheça o outro. Sabe aquele filho da puta que você desconfiava? Na quarentena a gente tem certeza. Também tenho visto as voltas que o mundo dá. Sabe aquele filho da puta que você sempre teve certeza? Na quarentena, num é que ele tá precisando de uma mãozinha?

Ora, querido Diário…tempos difíceis para os cristãos. Tô aqui pensando na Matrix, mas, vai que esse é o famoso juízo final?


Acho que vou precisar tirar da varanda o bebedouro de passarinhos. Ângela (a pequena felina da família) está ficando nitidamente bem estressada com o movimento. Algo me diz que dei uma infernizada na vida dela para que meu dia ficasse mais bonito.

Outra lição, Jesus. Entendi.

 

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