Querido Diário – #47

Ora, meu querido, tenho contado os dias meio assim sem noção do tempo, mas meu signo, que não permite descaracterizá-lo, me obriga a seguir rigorosamente a ordem dos números que listei com você. Então, acredite: não pularei nenhum dia (gente, me deixe fazer frases com dupla negação?). Mas, terei que usar com você a frase que mais detesto ouvir da minha filha: Peraí! Já tô indo!!

Estava eu aqui, bem assim no meio da semana, assistindo a uma série. E preciso compartilhar o momento com você… mas, é necessário que visualize a seguinte cena comigo:  um homem recém separado, consequentemente solitário, sendo abordado por uma colega. Ele estava triste… Ela achou que poderia melhorar o seu dia (e o dela, né?) e declarou seu interesse por ele. Bonita, bem humorada, nenhum drama. Ele não gostou da ideia. Depois de uns dias, concluiu que estava triste o suficiente, então precisava sair AND beber AND conhecer gente nova. A noite foi um desastre.  Então, pensei: por que o excelentíssimo não chamou a mulher, que provavelmente seria a melhor companhia ever? Não posso brincar com quem gosta de mim, eles dizem. Não entendo o que pode ser mais legal do que ‘brincar’ com quem gosta de você, digo eu. Blá, blá, blá, brincar com sentimentos, blá, blá, blá, é diferente, blá, blá, blá, não é você, sou eu.

É estranho como as pessoas sentem uma certa repulsa por quem está disponível para elas, não é verdade? Ela, a personagem, insistiu em alguns outros momentos. No entanto, quando ele estava quaaaaase aceitando, sua ex esposa aparece para avisar sobre um evento nobody-cares dos filhos. Então, ele, todo sorridente, contemplado pelo evento nobody-cares com sua ex, foi à sala da mulher, e negou, novamente, o convite.

Agora corta a cena para outros personagens. Um homem triste, que relembra da mulher falecida.

Calma, não estou usando uma cena quase funesta para impactar o público. Mas, achei importante destacar o quão desapercebidas/desprezíveis/desprezadas passam, cotidianamente, nossas emoções. A gente já ouviu falar o quanto, na perda de um sentido, aguçamos melhor um outro. Sei que ninguém aceita com mansidão a perda ou a troca de um sentido pelo outro. Nem uma pessoa pela outra. Mas, perdas inevitáveis, por relacionamentos rompidos, por exemplo, é a falta de um pedaço, mas não é, mesmo destroçados, o nosso eu inteiro.

Em suas lembranças, a falecida esposa do personagem dizia que a vida é curta demais e nunca devemos perder a oportunidade de declarar o que sentimos. Sim, a vida é curta demais, concordamos. E, particularmente, desde que meu pai faleceu, essa frase saiu de tantos roteiros que já vi por aí, para fazer total sentido na minha vida.

Sou muito ansiosa para viver como se todo o dia fosse o último. Seria o caos. Mas, sempre falo o que sinto, porque por mais que eu não viva como se não fosse o último dia, tenho certeza que o amanhã ainda não existe. Mas, para aqueles que ainda não saíram de roteiros, uma declaração é um texto disponível demais para o resto de uma vida longa.

Não sei se você entendeu.

Não há necessidades urgentes de fazermos declarações de amor a toda hora para nossos pais, nossos filhos, nossos amores. Ou talvez seja esse exatamente o momento.

Todos sabem que o nosso tempo não é o mesmo tempo do outro. Nossa vida não é um roteiro uniforme. Nossas histórias só farão parte uma das outras para aqueles que dão sequência às falas, aos cenários, às trilhas sonoras, às emoções. Caso contrário, não estamos no mesmo livro. Ou a página foi virada. Uma vez me disseram “Não queria que nossa história parasse na página nove”. Hoje sei que aquele livro tinha apenas nove páginas.

Éramos sonhadores.

Analogias de autoajuda, foi o que fiz. Mas não pense que foi para você, querido Diário. Foi para mim.

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